A Flusócio destruiu o Fluminense (por Caio Barbosa)

 

Hoje foi dia de retornar às Laranjeiras. Pela segunda vez neste ano e, salvo engano, quinta ou sexta vez nos últimos oito anos. O lugar que frequentei quase que diariamente por boa parte da vida já não me pertence mais. Foi tomado de assalto por uma legião (sem trocadilho) de vigaristas, mentirosos, farsantes, canalhas e dilapidadores de patrimônio no início de 2011, conforme infelizmente avisei que aconteceria, sem nenhum tipo de orgulho de minha parte por ter avisado. Mas foi o que aconteceu.

O clube que no século passado ganhou o Prêmio Nobel do esporte, que tornou-se referência em absolutamente tudo, tanto desportivamente como socialmente, sendo um dos principais centros de convivência da sociedade carioca, tornou-se um celeiro de gente abjeta. Do dia para a noite. O desespero dos funcionários já em 2011 falava por si. De uma hora para outra passaram a conviver com pessoas que nunca haviam estado ali e se vestiam de uma arrogância e prepotência típicas de torcedores do clube que fica às costas do Redentor, não de frente para ele, como o nosso. E eu me recuso a frequentar o mesmo espaço que esta turma. Não sou mais tricolor do que ninguém. Mas sou tricolor. Essa gangue não é.

Esta semana, no entanto, fui convidado por um grupo de torcedores e conselheiros para acompanhar a entrega de 150 cestas básicas a funcionários do clube e também terceirizados que estão há meses sem receber. O convite chegou através de uma ligação de Antônio Gonzalez, ex-presidente da Força Flu, ex-dirigente, a quem muito critiquei, à época, mas que tem o mérito de poucos, diria raros, de não temer a arquibancada, onde fomos criados.

“Caio, tudo bem? Então, eu não sei se você está sabendo, mas a Young Flu está fazendo uma vaquinha pela internet para comprar cestas básicas para os funcionários, eu decidi ajudar, um grupo de conselheiros também, além de outros sócios, atletas, e eu queria saber se você poderia comparecer para acompanhar e, se não for inconveniente, contar com suas palavras o que viu”, disse Gonzalez.

Prometi que iria. E fui. Porque além de gostar do Fluminense, também criei laços de amizade com um sem-número de funcionários do clube ao longo das décadas. Mas ir às Laranjeiras é de cortar o coração. Entrei e fui direto ao Fidélis para o tradicional pão de queijo com Grapette. Não havia uma pessoa. Nem a Mariângela. Só havia uma placa com o verdadeiro nome da empresa, fantástico: “Terra Tricolor Ltda”, referência, claro, ao sobrenome da família. Segui para a antiga Fluboutique, atual Loja do Fluminense, um cenário devastador. Mesmo às vésperas do Natal, quando as Laranjeiras e a loja ficavam lotadas, não havia ninguém. E menos produtos que na prateleira de troféu do Botafogo.

O clube estava absolutamente deserto. Só não parecia abandonado porque lá estava o grupo de torcedores com suas cestas básicas a distribuir a poucos funcionários, posto que muitos estão sem dinheiro para ir trabalhar, outros tantos, segundo os colegas, foram coagidos pela direção para não receberem as cestas, o que dá a medida da baixeza moral, da covardia daqueles que administram o clube, a escória da sociedade, o oposto de outrora.

“É que infelizmente você não vem mais aqui, Caio. Tinha que vir para ver o que essa turma fez com o Fluminense. O que eles fizeram com o futebol, fizeram com o clube. Se ninguém fizer nada, pode acreditar: o Fluminense acaba”, contou uma funcionária com décadas de clube.

Diferentemente de todos que ali estavam, nunca participei da vida política do clube. Sequer voto. Nunca votei. Não é uma virtude. Aprendi com Armando Giesta que nosso lugar é na arquibancada. É lá que sinto bem. Mas hoje admito que se não fizerem alguma coisa, podem acabar com o Fluminense.

Nunca vi tanto lixo junto. Me desculpem pelas palavras fortes e pelo mau humor, mas eu sou assim. Quem gosta de lixo é urubu. E a flusócio. Eu sou tricolor. Estou do outro lado. Parabéns aos torcedores pela iniciativa, e aos funcionários pela dedicação.

Fora, Abad. O Fluminense não precisa de você. Pegue seus trapos e vá pigarrear com o Peter Siemsen. Saiba que todas as vezes que você entra no clube pelo portão principal, os funcionários sentem nojo de você. Foi o que ouvi hoje deles. O Oscar Cox, naquele busto, também. E eles estão cobertos de razão. Você e seus asseclas envergonham nossa história.

Vida norte

(rio Miño… de um lado, Espanha… do outro, Portugal)

 

Vida no norte…

É dança da morte, é vida sem sorte, o sabor de corte…

E a ferida não cicatriza… já não tem cura, nem atura o norte da vida…

Nas fronteiras da terra os trilhos da morte passam por perto, meu rumo é incerto, viver por viver…

Sem gosto da sorte amigos não ter…

E a distância aprofunda o amor ao silêncio,  esse grito contido…

Paixão que inunda me mantém de pé…

Amo você estrela da noite, mensageira brilhante… meu último adeus será Parati…

A solidão é  meu reino, a prostituta é rainha, seus cabelos largos…

Tão bela era França mas o império caiu…

Abaixo as guerras, peço paz nas terras, tudo é sempre possível.

Mas se não me satisfaz vou procurar de novo…

O sentimento incrível onde o amor se desfaz, a violência no povo…

Será  que existe valor se eu não conheço a dor…

Peço clemência acabada a inocência o trem vai partir…

O absoluto é mostro se não te parece…

Pra Roma eu vou…

O trem já partiu.

 

*** 1988 – Galicia  –  Espanha