Fluminense Campeão do Brasil de 1970 – Um título que marca uma vida pois “A bola não entra por acaso” (por Antonio Gonzalez)

“Levanta… Bamos Antonio Carlos!”… aquela voz suave, porém firme daquele espanhol de Galícia que falava um portunhol galego, do meu Pai me tirou bem cedo da cama naquele sábado 19 de dezembro de 1970.  De férias, não havia nada pior do que levantar praticamente de madrugada, eram às 6 e meia da manhã daquele fim de primavera.  Mas o motivo era nobre: chegar cedo às Laranjeiras, para tentar estacionar o carro, um Chevrolet Opala 2500, dentro do clube.  Eram tempos em que a frequência à rua Álvaro Chaves, 41, num fim de semana, era feita por milhares de pessoas.  Depois das 9 horas, com sorte, se conseguia estacionar perto do Instituto Nacional de Educação de Surdos, na rua das Laranjeiras.  Tempos de um clube com mais de 25 mil sócios, com o comparecimento de multidões por fim de semana.

Opala 2500, o melhor carro da época.

Na noite anterior, na minha mesa de botão, o famoso estádio da rua Paulino Fernandes 6, em Botafogo, todo um amistoso, onde eu jogava ao mesmo tempo com os 2 times: de um lado a Seleção Brasileira, campeã do mundo, desfalcada do goleiro Félix (jogou o Ado, do Corinthians) … Do outro, o Fluminense (completo).  Digamos que fui imparcial, 6 a 4 para o Tricolor com 3 gols do Flávio, 2 do Lula e 1 do Mickey.  Para a seleção marcaram o Pelé (2) e o Rivelino (2).  Era, como se dizia na época, um coletivo apronto, afinal de contas no domingo 20, se decidiria a Taça de Prata, que em realidade se chamava Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, que nada mais era do que o Campeonato Brasileiro.

Félix, o lendário goleiro do meu 1º time de botão

Terminada a partida e recolhido o estádio (presente de aniversário pelos meus 9 anos recém cumpridos, uma mesa de dobrável, de 1,60 x 1m), dormi agarrado ao radinho Phillips, ouvindo a resenha da Rádio Globo, com as informações da dupla sensação das ondas médias esportivas, Denis Menezes e o Apolinho Washington Rodrigues.  O Flu já estava escalado de antemão: Félix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio; Denilson e Didi; Cafuringa, Mickey, Claudio Garcia  e Lula.

O Flávio, com lesão muscular não poderia jogar por 4ª vez consecutiva, já o Samarone cumpriria suspensão pela injusta expulsão na partida anterior, contra o Cruzeiro, em pleno Mineirão, jogo que ganhamos atundo como verdadeiros Guerreiros, com uma atuação impecável da dupla de zaga, Galhardo e Assis, com um Denilson soberbo, um Samarone cerebral, um Mickey como sempre oportunista e com o Félix como o nome do jogo.

Dormi o sonho dos deuses, embalado pelo imaginário de uma criança que crescia vendo o Fluminense disputar títulos. Campeões, Carioca e da Taça Guanabara no ano anterior, 2º lugar em ambas as disputas em 1970, só dependíamos da gente para a conquista do título de melhores do país, no ano em que o Brasil conquistou o Tricampeonato Mundial de Futebol, no México.

Todos os clubes participantes do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão. Também conhecido como Taça de Prata. Em realidade, o 1º Campeonato Brasileiro conquistado pelo Fluminense.

Realmente como o meu Pai desejava, às 07h15 já estávamos dentro do clube. Em 1968 ele havia comprado o título de Sócio Proprietário e eu havia me tornado Sócio Contribuinte Infantil.  Conosco estava o meu Avô, o Antonio Sanchez Barreiro, o Careca do Restaurante Yankee Brasil (rua Rodrigo Silva, 32 – Centro) que era simplesmente o lugar onde melhor se comia no Centro da cidade (point da Alta Sociedade capitaneada pelo casal Didu e Teresa de Souza Campos e pela família Moneró, com a ilustre presença dos mais renomados advogados do país como o Ministro Evandro Lins e Silva, Evaristo de Moraes, Wilson Mirza, entre outros, da galera emergente do mercado financeiro como o Edgard Hargreaves e Octávio Willemsens Jr, do banqueiro Tricolor Wilson Xavier e de jornalistas do naipe Hélio Fernandes, Sebastião Nery, Pedro do Couto e Orlando Baptista).

O Restaurante Yankee Brasil na Coluna do Zózimo no Jornal do Brasil.

Vovô, havia sido Presidente da Casa de Galícia (cuja fusão com o Clube Espanhol deu origem à Casa da Espanha cuja sede fica no Humaitá) e era o grande líder da colônia espanhola no Rio de Janeiro. Quando chegava ao Fluminense sempre era parado por amigos e clientes que lá estavam, 100% prosa. E naquela manhã, 19 de dezembro de 1970, não foi diferente.  O clube não se encontrava cheio como de costume, estava muito lotado.  Nas arquibancadas das sociais não cabia mais nenhuma alma, no total haviam umas 3 mil pessoas no estádio das Laranjeiras para ver o último treino.  Do lado de fora, o trânsito caótico, muita buzina, muitos fogos, ambulantes vendendo as faixas de campeão (nunca comprei de véspera, as sandálias da humildade não me permitem).  Uma festa, todos comemoravam os mais de 80 mil ingressos vendidos nos postos de venda como o Teatro Municipal e o Mercadinho Azul.

Galhardo, observado pelo Cesar Maluco, o maior zagueiro central que vi jogar no Fluminense, não perdia nenhuma bola pelo alto. Foto do 1º jogo das finais, contra o Palmeiras.

Mas para chegarmos à final é preciso relembrar a trajetória, inclusive a anterior ao começo do campeonato. E tudo se inicia no início de 1970, para ser exato na pré-temporada: a briga entre o treinador Telê Santana e o Preparador Físico Antonio Clemente.  Já que ambos decidiram um não trabalhar mais com o outro, o Vice Presidente de Futebol (o maior de todos que vi) João Boueri foi fundamental: “Já que você não quer trabalhar com ele, nem ele quer trabalhar com você, só me resta demitir aos 2”… Assumiu o Paulo Amaral.

Isso deixava claro o que era o Fluminense: um CLUBE dirigido por gente SÉRIA, que nunca se preocupou com holofotes, nem com comissões, e sim com conquistar títulos.

Planejamento

Mas na véspera de começar a competição a nossa torcida andava inquieta, afinal de contas ela sabia que o potencial da equipe era maior do que os 2 vices campeonatos (Taça Guanabara e Carioca) e questionava ao treinador Paulo Amaral, que pelo caráter militar que tinha, já havia tido atritos com vários jogadores, entre eles o Samarone e o Marco Antônio.

Mas a Diretoria do Fluminense sabia o verdadeiro sentido do que que é FAZER GESTÃO e não se omitiu na hora de trabalhar o que ninguém vê: os bastidores.  Não aquelas lorotas feitas em mesas de restaurantes da zona oeste comemorando o fato de certas renovações de jogadores da base e de vendas intempestivas e sem transparências.  Mas sim o esmero desde fazer uma tabela que permitisse ao clube jogar as 4 primeiras rodadas em casa (Corinthians, Cruzeiro, Grêmio e América, pela ordem, 4 vitórias), assim como a montagem de toda estrutura fora do Rio de Janeiro.

A tabela inicial


Por outro lado, o conjunto do time era sensacional. Aquele elenco começou a ser montado definitivamente em 1968 com as chegadas do Félix, do Galhardo e do Assis, que encontraram nas Laranjeiras ao Denilson, ao Samarone, ao Oliveira, ao Wilton, ao Claudio Garcia, ao Jorge Vitório e ao Lula. Com os garotos da base como o Marco Antonio, o Lulinha, o Didi.  A cereja do bolo tinha nome próprio e foi contratado em 1969: Flávio Minuano, a 9 que tinha cheiro de gol.  Em 1970, os reforços vieram para o banco.  Do sul chegaram 3 jogadores: o goleiro Jairo, o meia Jair e o centro avante Mickey. Toninho veio da Bahia e os zagueiros Alberico e Paulo Lubumba de equipes menores.

Do tempo em que o Fluminense era a LOCOMOTIVA DO FUTEBOL BRASILEIRO.

Além disso, fora das 4 linhas era uma seleção mundial: Francisco Laport, um PRESIDENTE (o melhor que vi) de verdade, daqueles que não precisam de holofotes, menos ainda de mentiras. Joaõ Boueri, José Carlos Villela, Zé de Almeida, Almir de Almeida, o Superintendente Seu Murilo e a Secretária Dona Marinete completavam o ataque desse time.  Sem contar a estrutura médica e a financeira.

O José de Almeida (Seu Zé de Almeida) merecia uma estátua dentro do clube. Foi o maior funcionário que o clube teve ao longo da sua história. Dos tempos em que os boquinhas não existiam nas Laranjeiras.

Se aliarmos a isso a presença maciça da nossa torcida, média de público de 41 mil pessoas nos 11 jogos do Maracanã, sendo 27.360 presentes de fluxo por partida nas 4 primeiras rodadas.

As 4 primeiras rodadas no Maracanã com média de 27.360 presentes.

Sem lugar à dúvida foi o Campeonato Brasileiro mais difícil de todos os tempos, os 22 jogadores Campeões do Mundo pela Seleção Brasileira no México, participaram. Não teve jogo fácil, basta ver a classificação final da 1ª fase.

Para o meu gosto a principal atuação do Fluminense foi na vitória contra o Palmeiras (a Grande ACADEMIA, campeã brasileira em 1967 e 1969), em São Paulo, por 3 a 0.  O Flávio marcou os 3 gols, o Félix defendeu um pênalti e o Galhardo e o Assis acabaram com a banca do Cesar Maluco que antes do jogo disse que iria fazer e acontecer com a gente.  Conclusão: no 3º RIPA NA CHULIPA foi jogar no meio de campo, além de posteriormente desperdiçar a penalidade máxima que foi magistralmente defendida pelo nosso arqueiro.

3 a 0 no Palmeiras de Ademir da Guia, Cesar, Dudu, Hector Silva (uruguaio) e Baldochi, dentro do Pacaembu. Aula magna.

Nas últimas paridas da fase de classificação o Fluminense caiu um pouco de produção, com a torcida mais uma vez questionando ao Paulo Amaral, tanto que chegamos na última rodada detrás do Flamengo e um ponto na frente do Inter, na disputa pela 2ª colocação que também dava acesso ao quadrangular final.

O treinador Paulo Amaral teve problemas de relacionamento com os jogadores, principalmente com o Samarone e o Marco Antônio

O sábado 5 de dezembro foi tenso, mas os anjos estiveram conosco: o Flamengo foi derrotado em pleno Pacaembu pelo Corinthians por 1 a 0, jogo que inclusive foi transmitido ao vivo para a Guanabara. E mesmo com a vitória do Inter por 3 a 1 em cima do Atlético Mineiro, as possibilidades do Fluminense eram difíceis, porém ótimas… bastava empatar com o Atlético Paranaense… ficaríamos com mais vitórias (8, as mesmas do Inter) e com 10 gols de saldo (contra 9 do Flamengo e do Inter).

Jogo contra o Atlético Paranaense. Tenso. Muita porrada, os caras estavam com incentivo extra. Nas fotos o Samarone marcado por 3 adversários e o Didi sofrendo uma falta não marcada pelo árbitro.

E apesar da arbitragem e mesmo sem o Flávio e sem o lateral artilheiro Marco Antônio, mas com gol de Mickey e com a melhor das melhores atuações do Felix com a nossa camisa (mais uma vez THE BEST em campo) conseguimos o empate.

CLASSIFICADOS…

Classificação final da 1ª fase. Classificados.

Os favoritos eram o Palmeiras e o Cruzeiro, o Atlético Mineiro de Telê estava em ascensão e o Fluminense o azarão.  Mais uma vez os bastidores nos ajudaram: a primeira e a última partida em casa.

De saída, 1 a 0, Mickey, no bicho papão do Palmeiras… De cabeça, quer dizer, de orelha.

Estrutura médica. Como dizia o saudoso e eterno Presidente Manoel Schwartz: “Futebol também se ganha dentro de campo”.

No 2º jogo, a teórica zebra: 1 a 0 no Cruzeiro em pleno Mineirão em cima de um timaço que tinha nada mais nada menos do que Tostão, Piazza, Brito e Fontana (campeões no México pelo Brasil), além de Dirceu Lopes, Zé Carlos, Raul e Natal. Novamente o gol de Mickey, com o Denilson e o Samarone (que foi absurdamente expulso) acabando com o jogo, com o Galhardo e Assis como Imperadores da nossa área e um Félix espetacular. Sem esquecer da arbitragem safada do Sebastião Rufino, que fez de tudo para nos ferrar.

No dia seguinte à vitória contra o Cruzeiro dentro do Mineirão, a nossa torcida fez passeata na Avenida Rio Branco e invadiu o Aeroporto Santos Dumont, carregando os jogadores como verdadeiros heróis.

E o sonho tinha tudo para ser realidade, bastava continuar com as sandálias da humildade… E assim seria!

Mickey, o autor dos 4 gols decisivos, em 3 momentos da conquista.

Até que chega o mágico dia 20 de dezembro de 1970 (pausa, preciso de um copo de água, senão não consigo terminar este texto, a emoção é imensa, lembro do MEU PAI).  Maracanã lotado, naquela época em qualquer jogo com mais de 100 mil pessoas, você poderia contabilizar 20% a mais de caronas no público presente.  Então esqueça isso de que foram somente 112 mil pessoas (nº de ingressos vendidos). Haviam mais de 135 mil cidadãos, jovens, adolescentes e crianças no Maracanã, num jogo de uma torcida só.

Show nas arquibancadas e apesar do empate nos dar o título, o nosso time saiu para ganhar o jogo. Fizemos 1 a 0, com o Mickey (marcou os mágicos e santos 4 gols que decidiram as últimas 4 partidas). O Atlético empatou e mesmo sem o nosso líder Samarone em campo, os nossos LEÕES Denilson, Galhardo, Assis, Oliveira e Didi, puseram aquela GARRA de heróis, enquanto a magia ficava a cargo do Marco Antônio, do Claudio Garcia, do Cafuringa e do Lula. O Félix, ahhh porra, o MEU ÍDOLO FÉLIX agarrou pra caralho (me permitam esse momento).

Meu ÍDOLO Félix ao lado, do não menos importante, Jorge Vitório, o EXCELENTE goleiro reserva.

Para terminar, entendam com os quadros abaixo O QUE ERA O FLUMINENSE, um clube dirigido por GENTE que não precisava de dar mais de 2 treinos, nem visitar vestiários, nem tomar banho nas banheiras térmicas do Maracanã.

O então jovem Preparador Físico Carlos Alberto Parreira (outro que merece uma estátua no Fluminense) já se mostrava um profissional diferenciado.
João Boueri, o maior Vice Presidente de Futebol que vi no Fluminense. Muito perto dele estão Newton Graúna, Antonio Castro Gil (meu Tio) e Alcides Antunes. Boueri, ao contrário dos amantes de holofote, de espelhos, de vaidades, de gabinetes do ódio nas redes sociais, nunca precisou aparecer. Ao contrário dos amantes de comissões, teve que se desfazer de 2 imóveis para ajudar ao Fluminense a cumprir financeiramente com o que havia se comprometido com os atletas.

O meu Natal durou até janeiro quando a MINHA MÃE, que também era Tricolor e SÓCIA do clube me deu o presente abaixo, o time de botão CAMPEÃO DO BRASIL.

Havia chegado a hora de chamar a Seleção Brasileira para outro amistoso!

O segundo amistoso contra a Seleção Brasileira, desfalcada do Félix, só poderia terminar de uma forma: 1 a 0 com gol do Mickey.

Em memória dos MEUS PAIS, do MEU AVÔ e dos MEUS TIOS.

Em memória daqueles que construíram o VERDADEIRO FLUMINENSE com inteligência, sem vaidades, sem oportunismos, sem comissões, sem parcerias ocultas com empresários.  É por esse FLUMINENSE que eu vou lutar até o dia da minha morte.

50 anos depois esse dia continua me emocionando

Fontes:

Revista Placar

Jornal dos Sport

Hemeroteca Digital Brasileira

Blog do Marcão

Flumania

Uma resposta para “Fluminense Campeão do Brasil de 1970 – Um título que marca uma vida pois “A bola não entra por acaso” (por Antonio Gonzalez)”

  1. JÁ O TENHO GUARDADO NA MEMÓRIA A TEIMAR EM MANTÊ – LO SEMPRE QUE OBSERVO O CONSELHO DELIBERATIVO E A PRESIDÊNCIA COM SUAS SINECURAS DISPENDIOSAS E INÚTEIS E ESSE ENIGMÁTICO JURÍDICO A FAZER COM QUE O JOSÉ CARLOS VILELA VIRE, REVIRE, SE VIRE NA CRIPTA…

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