50 anos do “Nove é a camisa dele!”… Boa sorte Mário Bittencourt, o seu sucesso será o sucesso do Fluminense! (por Antonio Gonzalez)

No dia 15 de junho de 1969 o  Fluminense chegava  à penúltima rodada com vinte e seis pontos, dois a mais do que o Flamengo que era o segundo colocado.  Portanto aquele Fla–Flu tinha sabor de decisão, semana agitada nas Laranjeiras, reféns ainda do título de 1964, cinco anos de estiagem no campeonato carioca, que então era o mais importante do país,  eram muitos.  Havia uma geração de jovens torcedores, que comandados por Sergio Aiub, líder da torcida Organizada, preparavam uma festa de arromba.  Duas toneladas de talco haviam sido compradas e devidamente ensacadas.  O treinador do Fluminense, com o passar dos dias, justificava a ausência do Diabo Louro na escalação do time titular: “O Samarone será a nossa arma secreta”.

Então eu tinha 7 anos de idade e havia acompanhado ao meu Pai a todos os jogos daquele estadual e apesar das preocupações da minha mãe “é uma loucura levar uma criança tão pequena para o Maracanã que deve ter 150 mil pessoas presentes” que me obrigaram a fazer um teatrinho e chorar copiosamente fazendo dengo no colo do meu avô que como todo espanhol do seu tempo determinou “ele já é um homem e vai comigo porque sim!” 

Com um Mario Filho literalmente dividido ao meio, para um público “oficial” de 171.599 pagantes, o time da Gávea foi o primeiro a entrar em campo acompanhado por  alguns torcedores rubro-negros que portavam uma gigantesca bandeira (para os moldes da época) e davam voltas pelo gramado, se sentindo soberanos.  Mal sabiam eles que a primeira surpresa estava preparada.  Debaixo de um terremoto de pó de arroz, nosso time também foi acompanhado por seguidores e para surpresa geral,  também portavam um hercúleo  pavilhão, com dimensões maiores.  Ali pensei, diante do fascínio que me fazia adentrar aquele mundo, começamos a ganhar o jogo.

Mais uma vez, nas cadeiras azuis, com meu pai, meu avô e meu tio Antonio Castro Gil. Juntos como sempre, já o meu tio Lorenzo que nos últimos tempos estava andando com uma galera tricolor da Tijuca que tempos depois daria origem à Força Flu, foi de arquibancada, pois tinha que ajudar na distribuição dos saquinhos de talco.  Meu pai não gostou,  o que valeu uma discussão entre os irmãos no almoço de sábado.  O jogo em si foram noventa minutos de pura emoção, o Fluminense abriu o placar com um gol do Wilton quase sem ângulo, eles empataram com um golaço do Liminha, Claudio Garcia desempatou num lance que transformou o goleiro flamenguista, o argentino Dominguez, em um personagem satânico, irritado por um possível impedimento no lance do gol, só visto por ele naquela cidade de concreto.  Acabou sendo expulso pelo juiz vedete, o Armando Marques, com o ponta esquerda dos caras, o Arilson sendo substituído pelo arqueiro reserva Sidnei.

O 1º gol marcado pelo Wilton

Vem o intervalo e eu tinha vontade de ir ao banheiro, o que fez com que meu pai me levasse a cometer a minha primeira transgressão à ordem pública.  Acabei fazendo xixi, ali mesmo, num copinho de mate, que o alegrinho do meu avô fez questão de jogar na geral… “É para refrescar a torcida deles”…  Naquele momento de olhos arregalados e com o sorriso maroto,  meu avô, meu herói.

Na volta para o segundo tempo, o time deles, mesmo com um jogador a menos pela expulsão do Gardel de Manicômio, aquela coisa que levava as cores do Exú do Seu 7 da Lira, partiu para cima da gente, só a vitória os interessava.  Assim, empataram aos quinze minutos numa bela cabeçada do Dionísio, na única bola aérea que ganhou dentro da nossa área onde o Galhardo foi o grande xerife, como se tratasse de um filme de faroeste interpretado pelo imenso John Wayne, onde nós éramos, como sempre, do lado dos mocinhos.  Eis que então surge o segundo personagem do jogo, Félix Mielli Venerando, o nosso Gato Félix.  Tinha baixado no adversário o espírito do rolo compressor, e tome bola no ataque dos caras, pelo alto, de perto, de longe.  Nada parecia abater ao Papel, que se agigantou em campo.

O Samarone havia substituído ao Lulinha, o que tornou o Fluminense mais ofensivo.  Arma secreta ou não, o certo é que aumentou o volume do jogo tricolor.  Uma bola trabalhada desde a defesa que chega ao lado direito do nosso ataque, cruzamento do Wilton, o Claudio Garcia disputa com o zagueiro e a bola sobra para ele, sim a bola sobrou para aquele que a “Flapress” da época tentou minar, gol de Flavio, o meu primeiro herói, o artista principal daquele dia.

Sai do Maracanã, sentado nos ombros do meu pai, navegávamos naquele mar de gente…  A música cantada a plenos pulmões, na primeira vez que eu conjugava o verbo sacanear…  Eu sacaneio um flamenguista, tu sacaneias um flamenguista, nós sacaneamos a vários flamenguistas…  Na voz uníssona da nossa torcida o “É ou não é, piada de salão, o time do urubu, querer ser campeão” tinha ares e requintes de crueldade.

Fomos todos para as Laranjeiras festejar, no rádio do carro, os comentários do jogo e ainda com muita emoção, escutamos a narração do Waldir Amaral… “Bola para Flavio, chutou, é gol…  Golllllllllllll do Fluminenseeee…  Flavioooo… Nove é a camisa dele… a camisa que tem cheiro de gol…  indivíduo competente!!!  Tem peixe na rede do Flamengo…”.

Até hoje me emociono, realmente…  aquela camisa tinha cheiro de gol!

Minha primeira final, campeão em cima do Flamengo, torcedor do Fluminense para toda uma vida… O time base que aqueles garotos como eu recitam até hoje, 50 anos depois: Félix; Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio; Denilson e Lulinha; Wilton (Cafuringa), Flávio, Cláudio Garcia (Samarone) e Lula. Técnico: Telê Santana – Presidente: Francisco Laport – Vice Presidente de Futebol: João Boueri

E no meu escrete do Fluminense de todos os tempos, nove é a camisa dele… eternamente Flavio.

É ou não é piada de salão, o time do urubu querer ser campeão?

Quem me conhece sabe que comigo o papo é reto, sem meia palavra, sem pique esconde e sem jogo de amarelinha.  É deveras conhecido que nem eu sou pessoa do rol de amizades do Mário Bittencourt, nem ele é pessoa da minha convivência. 

O certo é que não sabe nada do que fiz e represento, menos ainda o que representou a Força Flu para o Fluminense entre 1978 e 1985.  Como escreveu em seu dia o grande Paulo-Roberto Andel em seu livro O FLUMINENSE QUE EU VIVI: “não era apenas uma torcida organizada, mas um movimento político em plena época da ditadura, questionando equívocos da direção tricolor…” e até mesmo “entretanto, num cenário de grande conturbação política dentro do clube à época – e do país – a Fôrça Flu teve papel decisivo para semear as bases do que viria a ser um dos times mais vitoriosos da história tricolor. Ela reinvidicava como nunca e ansiava por dias melhores num momento em que estávamos à míngua – e ajuda a explicar o salto que demos entre o final de 1982 e o de 1983. As camisas verdes circulam nas arquibancadas de todos os estádios, ginásios e congêneres onde as três cores se façam presentes.  Convêm respeitar a história.”.

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No dia seguinte após o Fla-Flu de 1983, gol do Assis, a Força Flu invadiu o Corcovado. Essa foto foi capa de mais de 10 jornais em todo o Brasil. O nosso Fluminense voltava a ser GRANDE

Portanto as divergências entre o Gonzalez e o Bittencourt ficam no aspecto pessoal uma vez que agora ele é o Presidente do clube.  Repito: isso é pessoal e pelo bem do futuro da Instituição somente ficará nesse âmbito.

A lamentar o fato de você Mário só  ter começado a viver o intramuros  da história do Fluminense e do clube há 20 anos com a sua entrada como estagiário da entidade.  Só que o nosso Tricolor está a ponto de cumprir 117 anos dos quais eu posso falar com sapiência sobre os últimos 50.  Portanto conheço porque vivi.  Isso não me faz mais ou menos torcedor que você. Mas é fato.

Podemos dizer que são tempos diferentes, mas eu cresci na cultura do papel esperando sempre meu Pai regressar do trabalho com O GLOBO, leitura obrigatória pelas então últimas páginas do 1º caderno. Com o advento da mesada que começou aos 9 anos, em 1971, começaram, na sobra das moedas, a pintar o Jornal dos Sports nosso de cada dia.

E eu cresci em anos de glórias.

Posso dizer que vivi a segunda década de ouro do Fluminense, somente superada pelas conquistas da “seleção paulista” de Batatais, Hércules, Tim e Romeu, entre outros dos anos 1930.

Mas de 1969 a 1985 aquelas gerações de Tricolores, crianças, adolescentes, jovens e adultos, foram muito felizes.

Com certeza, infelizmente aquele Fluminense não existe mais. Oxalá com você e através de você ele alcance novos e determinantes horizontes.

Sinceramente é o que eu desejo, o teu sucesso será o sucesso do Fluminense. 

Mas o Mario Bittencourt necessita ter cuidado com o afã de seus apoiadores mais diretos. Não fica bem que os seus principais assessores políticos tenham processado em seu dia ao Fluminense.

Não se pode fazer política com o fígado, menos ainda com ódio.

Tanto os recorridos como o advogado são conselheiros eleitos na chapa vencedora do Mário Bittencourt

Sendo assim para nada me interessa fazer a política fratricida que a Tricolor de Coração fez e realizou desde o 1º dia da gestão passada, não será desta forma que teremos um clube com a tranqüilidade necessária.

Por outro lado, aquela cagada do Marcelo Teixeira com o aval do ex Presidente Abad, na venda do Diego Souza pelo Sport de Recife para o São Paulo, pelo menos de momento te trará algo de tranqüilidade.  Apesar de termos perdido mais de um milhão e meio de reais, o dinheiro liberado no Banco do Brasil, permitirá que nesta segunda feira, o clube consiga pagar algumas das pendências que tem com os funcionários. A se ressaltar a participação do Presidente do Conselho Deliberativo do Fluminense, Fernando Cesar Leite, junto a órgãos competentes na semana passada.

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O Fluminense é futebol antes que o resto. Os tempos mudaram e os sócios futebol decidiram essa eleição. O clube pertence aos seus torcedores.

Os tempos mudaram, a arquibancada decidiu a eleição. E isso é o aspecto mais positivo.  A partir de agora os poderes dos Esportes Olímpicos e dos aproveitadores da Democracia Tricolor tendem a zero.  Vou continuar como Conselheiro pelos próximos 5 meses e meio, é um direito legítimo.

E deixo claro desde já que se a galera do Márcio Trindade e do Ricardo Lopes começar a te dar problemas nesse começo de gestão pode me procurar porque estarei sempre disposto a bater de frente com esses caras. Nesse caso sim que é pessoal pois o Fluminense deles nada tem a ver com o nosso.

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As verdadeiras torcidas organizadas e os verdadeiros tem que ser apoiados

Outrossim é o diálogo com os que de verdade representam a nossa torcida e não falo de pela sacos que dizem ser torcida organizada ou movimento. É preciso saber quem é quem, quem realmente faz arquibancada e quem vai na onda.  Urge que se mude o canal de comunicação do clube com o BEPE, com o Ministério Público e com a Sunset.  Não podemos aceitar que tratem os nossos como marginais, pois antes de mais nada o Maracanã é também é nosso e nós somos os donos da festa.  Portanto não são eles que tem que determinar que tipo de festa, menos ainda de atividade (bateria, bandeiras e alegorias) podem e devem ser autorizadas.

Quanto aos que perderam a eleição: Não é momento de guerra. Permitam ao novo Presidente que possa colocar em prática o seu plano de gestão.  O que for correto vou aplaudir, o que não for, vou criticar.

Mas nesses primeiros 6 meses, que é o tempo de chegada só me permito exigir que o nosso time não seja rebaixado.  Qualquer coisa que surgir além disso já estaremos no lucro.

No mais, VENCER ou VENCER, sempre!

Saindo dos quartéis do exército em Realengo onde esteve preso em 1969 pela Ditadura, o imenso Tricolor Gilberto Gil SACANEIA o Flamengo depois da vitória do seu Fluminense sobre o rival.

Portanto este texto só poderia comemora os 50 anos do título de 1969 da seguinte forma: “Alô torcida do Flamengo aquele abraço!”.

6 respostas para “50 anos do “Nove é a camisa dele!”… Boa sorte Mário Bittencourt, o seu sucesso será o sucesso do Fluminense! (por Antonio Gonzalez)”

  1. Um belo texto!
    1969, para nossa geração, de fato foi um grande campeonato; tinha 9 anos e esse jogo me deu (pela primeira vez) muito orgulho de ser tricolor.
    Quanto a vitória do Mário, nos resta torcer e apoiar, pois as pessoas têm visões diferentes sobre o que é o melhor para o Fluminense, sem juízo de valor sobre as intenções.
    Forte abraço.

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